segunda-feira, abril 30, 2007

Life is a song

E no final, o resumo de um ano cabe em poucas linhas. Todas aquelas alturas que se adivinhavam penosas passaram a voar. Aquelas que se imaginavam divinas fizeram jus ao provérbio. Tudo em corrida, não mais de cinco músicas. Um ano guardado num qualquer on-the-go que silencia sem bateria farto de ouvir as mesmas músicas. Mais farto ainda de gostar delas. Este ano vou roubar mais felicidade ao tempo. Promessas esquecidas nas consequências de minutos vividos a correr com medo de gastar todos os cartuchos de uma vez. E depois a conclusão final de que nada muda, a natureza realmente só se transforma. Mudam os cenários, mas a saudade dói da mesma maneira e o orgulho consome com a já conhecida arrogância. O final ninguém o conhece embora alguns o vaticinem para ontem. A maioridade alcançada num dia desperdiçada em dezenas de decisões. O síndrome do peter-pan a acordar os dias, a preguiça a matar as noites. Mas de Galileu e menos de Socrátes valem a incongruência de todas as letras juntas em pedidos de ajuda disfarçados de ultimatos. A mão a empurrar para a porta da seriedade e os pés a travarem com o desejo de inocência perdida em cantos que não conhecem arrependimento. A voz incessante a mandar fazer o que o coração não reconhece. A vontade de acreditar em começos do zero, em pedir uma segunda oportunidade lá ao santo dos desencontros dos que chegam sempre tarde demais. O cansaço perdido em innuendos que esgotaram a força para esconder o pó desalinhado que se acumula na estante no buraco de um livro que tombou bruscamente. A certeza da razão esbatida por torneiras abertas de algo que decerto não é tão límpido como a água. A boleia do always-on-my-mind sempre ao curvar da esquina a zarpar antes da sirene. E a sombra que persegue os silêncios, esse sinnerman que insiste em tapar-se com chapéus que lhe escondem a emoção mas não existência. O amanhã vendido a ideais de cuja utopia se começa a desconfiar. A fome de mundo a despertar aquilo que mais tarde serão rugas. Os machados pesados a enterrarem feridas por cicatrizar que temem em não aceitar o final merecido. Rios de choro que esperam que o ciclo das águas lhes ensinem outro caminho. A solução da inequação perdida no bolso do casaco de Inverno. A prova dos noves que exige mais ginástica do que a que o corpo permite. Um ano. Não o melhor, não o pior. E por favor, não o último.

segunda-feira, abril 02, 2007

La Ritournelle

Tudo isto de uma maneira metafórica de falar sobre o que não consegue ser mencionado. Quanto mais ficar na mesma, mais lhe parece que eles mudam. E ainda que não o perceba, tem de se adaptar às teclas e não as teclas a si. Mas a transformação torna-se proibitiva, passa a uma hesitação capital. A ambiguidade em que se meteu não é saudável, não é salutar nem benéfica. É uma demência que o consome, uma impertinência inegável que alimenta e acima de tudo quer alimentar. Age por impulso, toca por ouvido. Por detrás da batuta milimétrica em que se tornou jaz uma excessiva amargura apenas atenuada pelos extenuantes encontros confidenciais, dignos das suas presenças e do espírito de nenhum mais. E fosse o que fosse que a tivesse repelido, obrigava-o a improvisar de modo brusco e eficaz sob o risco de paralisia. A convicção da sua escolha encontra-se indefinidamente marcada à incerteza numa espera invertida, culpa do instinto criminal de quem se vingava lentamente e o enfeitiçara no fim. O estereótipo tendencial que revela possui a incontornável característica do sadismo, produzido à imagem e semelhança da figura que o provocou. A ilusão anónima das noites em claro era poluída com fantasias impuras e desejos impróprios que repudiava e abraçava com a mesma intensidade. Aí entra a confusão. Uma palavra que usava para explicar uma ordem que não compreendia. As luzes vão-se lentamente apagando no teatro dos sonhos; o pano desce de vez e as câmaras que sempre reclamou avariam ciclicamente deixando-o imortalmente nu. Reconheça-se, porém, a perpetuidade do seu esforço para perceber como ouvir, como ver, como estar. Louve-se a insistente tentativa para decidir o bom o mau ou o razoável. Aprecie-se a sua arte e a incompatibilidade passional dos seus instrumentos que a figuras alheias contagia bocejos e olhos semicerrados. Tudo o que as suas notas musicais precisam é de alguém que as testemunhe. A sua vaidosia precisa ser alimentada compasso a compasso e não de ficar eternamente de costas voltadas para as cadeiras desabitadas. Não precisa mais de produzir para si, nem tão pouco de produzir em série. A fama imaculada que construiu é reconhecida em cada avenida mesmo sem o seu consentimento. Pretende dar o passo final para o incerto e levar consigo a convicção de quem se fica pela expectativa. Quando voltar, a gravidade das palavras terá passado e a reaproximação com a sua inspiração será plena. Quando voltar será hora de compor a sua mais eloquente obra que o levará à derradeira batalha da escolha. Antes que o maestro secundário lhe tome a orquestra, unanimemente reconhecida como a tal.

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Princípio da não retroactividade do arrependimento

cf. artigo 5º da CRP (Constituição das Relações Problemáticas)

terça-feira, outubro 17, 2006

Al medina

E no entanto nada de novo. A simplicidade das situações é traduzida de modo claro segundo o ilustre de bigode. A ingenuidade é a ignorância dos problemas, impõe, sem mácula e ínfima altivez. Não há lugar para o descrédito em tais poltronas impiedosas de um sobrevivente secularismo. A exigência das palavras bate leve, levemente. Mas gente não será certamente se acreditar ainda na inocência dos demais. Outros, que partilham o esforço da escuta e brilhantemente se escapam aos compromissos naturais. Os apertos de mão telepáticos que os selam desfazem-se à velocidade de uma traição bem vinda. A teimosia invade as mentes cerradas e cria o seu muito próprio e peculiar álibi que persiste na justa medida da natureza humana. E na ilusão quotidiana, há os mestres, os discípulos e os ingénuos, eternos iludidos. Estes seguem as badaladas da malfadada torre, património mundial da insanidade. Muitos são os chamados mas pouco os escolhidos para transpor a porta no dia do Juízo Final. Um a um os candidatos, jurados e julgados, sobem ao palco e confessam as suas ofensas. E de novo o barulho. Molière, 7 vezes, cada pancada um pecado mortal único e distinto. Os infiéis, réus pela mítica preguiça em investir nas pessoas são condenados à imortalidade da desconfiança, cada um carregando a sua própria caixa de pandora onde jazem para a eternidade os seus crimes. A solenidade do momento agrava-se com o último toque do dia. Atrasado, segundo o costume. E impunes acabam por sair aqueles que viram os seus crimes compensados e encobertos. Sobre esses se abaterá a maldição da culpa, porque até os relógios atrasados acertam duas vezes nas horas.

domingo, setembro 03, 2006

Cirque du soleil

Um bafo quente acorda-o no colchão. Vira a almofada vezes sem conta procurando o pedaço de tecido mais fresco. Escreve por estes dias em casas alheias seguindo já para a terceira. Nenhuma a que possa chamar casa. Esqueceu-se de como se escreve e contenta-se a ir preenchendo linhas em branco. Paira por estes dias qualquer coisa incerta nos sítios por onde passa. Vai-se limitando a passar. Chegadas tardias em estados doentios com vista para algures. Vai aproveitando o que lhe resta. Suplica por ideias e tudo o que lhe ocorre é mais um vicio. Nada. A juventude passa-lhe a uma terça-feira sem que a conseguisse conhecer como vem nos filmes. Os acordares seguintes trazem tenções novas e vontades para um depois diferente que esbarram em memórias passadas. Só lhe ocorre o que foi. O amanhã aparece excessivamente longe assim como o outro dia. E o outro. A história tende a repetir-se e ele segue-a, fiel. Quer lá chegar mas encontra o depois sempre a seguir e nunca ali. Foge-lhe tudo. Passam-lhe os sonhos. Fogem-lhe as pessoas. Passa-lhe a inspiração. Nada se cria, tudo se perde. Passa-lhe a vontade de começar de novo. Renova-se um tormento antigo. Assusta-o a ideia de mais um ano à maneira clássica. (Quarta casa) Olhar em redor e ver um monte de espectros de outros tempos a rondar. O sol abrasar e entrar ameaçador parando no soalho e na tinta branca. Desaparecem os fantasmas. Sobram as figuras no armário que perdem a cor à sua velocidade natural. Sem traços que se distingam aguardam a sua vez para serem arrumados. A qualidade da cola confirma-se. Pega-se inabalavelmente à madeira levando um bocado dela consigo ao descolar. As fotos ficam por hoje. Talvez amanhã pense numa outra maneira. Passado talvez o depois.

quinta-feira, maio 11, 2006

What Women Worth


Nunca foi tão bom ser solteiro. Nos dias que correm basta uma tarde na esplanada ou uma noite num bar para nos inteirarmos sobre o sexo feminino e toda a sua crítica psicologia. Algumas mulheres bonitas são como um par de sapatos Prada. Vêmo-los numa montra qualquer e deslumbramo-nos mas achamos sempre que não valeriam o dinheiro. Outras são como um relógio da Swatch, engraçados e com estilo mas cansativos e descartáveis ao fim de algum tempo. Há ainda a maioria que é como uma peça de roupa da Zara que não hesitamos em comprar mas nunca pensamos em usar mais que uma noite, e há também as All-star. São novidade durante algum tempo mas acabam nos pés de toda a gente, sujas usadas e esquecidas debaixo da cama, com o tempo. E depois há as outras. Há os Ferrari topos de gama. Vermelhos. Aquele tipo de mulher que vemos em fotos ou raramente ao vivo, de quem não nos tentamos sequer aproximar. Têm alarme e estão sempre radiosas. São raras e só para alguns mas até podiam ser nossas com algumas aulas de condução defensiva se mesmo assim não tivéssemos tanto medo de um estoiro no primeiro mês. São uma tentação e uma loucura de velocidade. A adrenalina sobe e o coração bate a 300 kms por hora em linha recta. Desistimos. Paramos mais a frente para comprar um relógio ou umas sapatilhas que nos subam a moral. São rápidos, são acessíveis. Servem sempre. Poucos arriscariam os sapatos Prada. Mas para ter um Ferrari é preciso merecê-lo. É preciso gostar e não perder um grande prémio. É preciso ter noção do risco e saber ultrapassá-lo. As regras somos nós que as fazemos e como todas as outras, temos de as quebrar. Pedem para o ser. E o meu sonho sempre foi ter um Ferrari. Mas se não quisermos materializar as mulheres, a sua categoria é realmente desnecessária. Em poucas palavras, há as mulheres de trabalho; mulheres da noite, e mulheres de casa. Felizes aqueles que tiverem as 3(em uma). E estas são também cada vez mais intolerantes em relação a nós. Vai persistir sempre o tradicional estigma “os homens são todos iguais” e até se perder a mania elas nunca vão encontrar O Homem. E nós nunca vamos ter o nosso Ferrari.

sábado, abril 29, 2006

Finalistas



Passadeira vermelha. A dança dos vestidos compridos e sapatos resplandecentes. Olhares boquiabertos para o par que chega, ele ajeitando a gravata - ela fazendo um esforço sobrenatural para não se desequilibrar e perder a seriedade. A postura hoje é distinta; os sorrisos são nervosos e a conversa mais formal. Todos vestidos impecavelmente e bem comportados por uma noite. Umas poucas horas de fama que duraram uma eternidade a cumprir-se e voam agora ao som de Louis Armstrong e Diana Krall. Os olhares são mútuos e sucessivos; comentam-se penteados e vão-se contando estórias de infância. Muitos contam-na desde há muito tempo, aqui. Aqui cresceram e se tornaram Homens. Sentem em si o orgulho de ter chegado longe; vêem-se nos outros, espreitam cada canto que guarda cada segredo nas paredes frias e mudas. Aqui tivemos a primeira nega, a primeira paixão, o primeiro melhor amigo. Venerámos os mais velhos e somos agora chamados de grandes. Muitos não tinham sequer altura suficiente para se lembrar de si quando aqui chegaram. Outros entraram há pouco mas já suficiente tempo para sentir a diferença e o peso da responsabilidade. Até ao final da noite cada um vai certamente desejar que o ano tivesse já acabado, imaginar-se de capa e batina com um diploma na mão na torre que fica já ali ao lado. Mas não hoje. Hoje todos vão olhar para o passado, ver onde chegaram no presente e descontrair com o futuro. Hoje despedimo-nos, 5 10 15 anos depois. É incontestável dizer que as despedidas custam sempre mesmo aos mais duros. Acabar algo é sempre um misto de satisfação por dever cumprido mas também de melancolia e saudade, quando a ocasião e as pessoas nos marcam. Mas a seguir a um acabar segue-se imediatamente um novo começar e todos nós estamos agora à espera. Cada dia vai sendo menos um para mais uma despedida, mais um abraço que acaba num até para o ano. A partir do momento em que à frente do nosso nome vier escrito aprovado ou reprovado cada abraço pode vir a ser o último. Mais cedo ou mais tarde acabaremos por recorrer ao divino ou esperar que a sorte tome conta de nós. Mas não há Deus ou sorte alguma no mundo que nos valha se ficarmos para trás. Todos estamos dependentes apenas de nós próprios para decidir o que fazer com o que nos dão. Decerto uns ganharão mais; outros ocuparão lugares de destaque; alguns, poucos, serão famosos. Mas de barba rija e barrigas proeminentes cada um vai olhar e desejar nunca ter saído desta idade. A fasquia está alta. O compromisso assumido. É esta a vantagem da ambição. Podes não chegar à lua mas tiraste os pés do chão.

domingo, abril 16, 2006

Watch me forget about missing you

Um amigo serve para tudo. Tudo mesmo. E a ele pergunta-se tudo. Desde o que se vai comer ao jantar, à cor da meia que se deve vestir até a coisas mais sérias. Pede-se conselhos porque procuramos na experiência de outros aquilo que ainda não sabemos. Como se deixa de amar!? Assim tipo bomba. Este é daqueles conselhos que queres em formato de receita mas olha que não é rápido ou fácil. Mas começa por juntar 5 doses de paciência e 6 colheres de tempo a ferver numa panela de amor-próprio. Costuma-se pôr força de vontade assim a olho e optimismo qb. Dito assim até cozinhar parece fácil. Mas não é. Primeiro há que ter coragem para se libertar o síndrome do abandono. Procura-se vacina para tudo aquilo que traz lembranças. Sítios, cheiros, filmes, frases e músicas. Desenvolvem-se rotinas de desabituação. Depois encontra-se força para não se deitar abaixo a decisão que se tomou tantas vezes. Escava-se, esgravata-se se for preciso, mas ela aparece e ajuda a tornar a pacífica e isenta de aceleros cardíacos a presença dele. E depois sem se notar algo esbate, fica assim em tons de marca d’agua. E no final assim de repente dá-se um click, réplica do do início. Ás vezes nem se ouve mas ele dá-se. E liberta. Transforma. Fecha uma gaveta à chave e atira-a para o rio. Deixa de ser um presente estranho, rancoroso e doloroso passa a ser um passado, com os seus maus e bons, que cheira a verão e traz um beijinho na testa sem vontade de voltar. E voilá. Aí tens a tua receita. Antes tarde que nunca.

segunda-feira, abril 03, 2006

Porque não pedir o mundo?

Cinco, quatro, três, dois, …
Pois, não passámos do dois.
Mas deixemos os relatos infelizes para depois.
Estivemos quase,
mas quase não sei se chega.
Mandámos vir champagne e deu-se a tragédia grega.
Como é que se diz? Foi por um triz
que nós não pusemos os pontos nos is.
Nabice? Preguiça? Alguém faltou à missa?
Qualquer coisa lhes deu, não sei bem o que foi.
Sei é que fizemos um grande campeonato mas na final não jogámos um boi.

Um boi?!
Foi ou não foi?

Corremos, marcámos, merecemos,
saltámos, sofremos e fizemos sofrer.
Fizemos o possível enquanto houve combustível
e metemos o que havia para meter.
Como é que uma equipa com talento, magia
e um futuro de que tanto se disse,
está disposta a deitar fora a energia
e se conforma em estar na história como "vice"?
Nada disso!
O tuga, que até hoje só provou que consegue ser segundo,
Vai, por isso, deixar de ser chouriço
e assumir o compromisso de ser campeão do mundo.

Corre mais, joga mais,
Menos ais, menos ais, menos ais,
Quero ainda mais

Há quem diga que Portugal não está em forma,
modesto por norma, faz-lhe falta um safanão
que nos faça de uma vez acreditar
que entre os que podem ganhar
está a nossa selecção.
A fasquia está alta? Não faz mal, Portugal salta
com milhões a empurrar.
Até pode parecer louco, mas para nós segundo é pouco
E um louco não se deve contrariar.
Será demais pedir o mundo?
O que pedimos, no fundo, são ainda menos ais.
Porque todos se lembram do campeão
Mas não dos que são derrotados nas finais.
Ficar nos dois primeiros não tem mal nenhum,
É preciso é que fiquemos no número um.
Vamos apagar da história essa final de má memória
e vão ver que ninguém topa.
Porque eu posso estar errado, mas que eu saiba, em qualquer lado,
o melhor do mundo é o melhor da Europa.

Corre mais, joga mais,
Menos ais, menos ais, menos ais,
Quero ainda mais

Repete-se o refrão, a história é que não.

Marca mais, chuta mais
Menos ais, menos ais, menos ais,
Quero ainda mais.

É o retrato de um país aplicado ao futebol.
Tem tudo o que é preciso, só perde por ser mole.
Toca a acordar, pessoal!
Queremos mais garra,
deixar de ficar felizes quando a bola vai à barra.
Vamos com tudo, meter o pé, chutar primeiro,
Que o último a chegar é ****leiro.
Ter medo deles? Isso era dantes!
Vamos embora encher de orgulho os emigrantes.
Sem esquecer que nas grandes emoções
quando grita um português, gritam logo 15 milhões.

Heróis de Berlim, nobre povo…
Não tinha graça cantar um hino novo?
Escrito pelo pé de artistas
que vão alargar as vistas à nação verde e vermelha.
Ficar em segundo? Nem morto!
Ganhar ou perder é desporto? 'Tá bem abelha!
Venha a Alemanha, o Brasil ou a Argentina
com cabelos de menina e cara de lobo mau,
se calham a apanhar-nos pela frente e viram as costas à gente… TAU!

Corre mais, joga mais,
Menos ais, menos ais, menos ais,
Quero ainda mais

Repete-se o refrão, a história é que não.

Marca mais, chuta mais
Menos ais, menos ais, menos ais,
Quero ainda mais

Seja no chão, pelo ar, de cabeça ou calcanhar,
de tabela, nas laterais ou no miolo…
Vai Ronaldo, finta um , finta dois, pode remataaaar… golo!!!


(É esta a vantagem da ambição,
podes não chegar à lua, mas tiraste os pés do chão.)

sexta-feira, março 31, 2006

all my bags are packed

i'm ready to go.
promessas tremendas impedem-me de fazer determinados comentários, mas acho que é permitido dizer que vou ter saudades tuas.
don't forget my postcard!

quinta-feira, março 30, 2006

Há dias especiais

Dias que nunca se repetirão, e que para sempre ficarão na nossa memoria. O primeiro dente, o primeiro dia de escola, a primeira boa nota, o primeiro susto, o primeiro amor, o primeiro beijo, o primeiro penalti, a primeira vez, o último adeus, o último beijo, último cigarro, último encontro. Todos eles ficam cravados nalgum pedacinho da nossa cabeça por motivos mais ou menos importantes. Normalmente é pelas sensações que nos transmitem. Ás vezes, quase sempre, é por que nos fizeram sentir especiais. Descobri há dias que ser especial não é nada de tão interessante assim. Já ouvi isso milhares de vezes em milhares de bocas diferentes para milhares de pessoas diferentes o que me leva ter a certeza que ninguém é especial porque no fundo somo-lo todos. Ninguém é igual e isso faz de cada um de nós especial. Hoje é um dia especial. O importante não dizer-te que és especial mas sim que és especial para mim.
Só isto porque já escrevi muitas linhas depois desta e voltei a apagá-las porque não fazem sentido. Sabes tudo o resto. A felicidade, a realização, a segurança, a diversão. Já conheces todos esses desejos. Hoje peço-te apenas para continuares ai desse lado como sempre. Para sempre. Parabéns.

segunda-feira, março 27, 2006

Well, I got one foot on the platform



Ficou sentado no sofá aquilo que lhe pareceram poucos minutos. Depois levantou-se devagar, e procurou o frigorífico. Oh there’s no one like the blonde one, pensou enquanto um trago fresco lhe aliviou o trânsito de pensamentos. Deixou-se ficar enconstado à banca da cozinha a pensar no que pensar. Esperou tantos anos (talvez não tantos, alguns que seja) por aquele telefonema e agora só conseguia reagir com a apatia daqueles que são apanhados desprevenidos. Correu a memória para se lembrar porque se tinham chateado. Acabou por desistir porque a memoria é traiçoeira. Apodera-se de cheiros, lugares e momentos e faz deles o que quer. A dele só gostava de guardar a luz da pele dela e o cheiro do seu cabelo, tudo o resto estava desfocado num estranho filme mudo. Por isso mesmo custou-lhe reconstruir o dia em que ela foi. Sempre soube que ela lhe ligaria, mais tarde ou mais cedo. Por isso mesmo prometeu que nunca seria ele a fazê-lo. Tinha decidido. Tinha escondido qualquer coisa que lhe faltara em instantes organizados. Numa vida planeada. Criou rotinas (de dia, de vida, de esquecimento, de estar). No entanto esquecera-se de planear como reagir. Já nem se lembrava se tinha respondido. Muito menos sabia o que fazer. E não podia, não queria. Se ela viesse quando não o visse, talvez ponderasse. Ela viria? Talvez viesse. Ele amá-la-ia como sempre, sem passado. E ela adormeceria nos lençóis pretos, para sempre. Talvez na manhã seguinte acordasse com fome de mundo e sairia descalça para os saltos finos não acordarem a casa ao pisarem o mármore preto. E depois que faria ele? When enough is enough? Não. Não ia. Antes ali sozinho. Ela não lhe podia pedir mais isso. Não podia apagar tantos anos de silêncio (talvez não tantos, alguns que seja) com só um as-oito-naquele-restaurante. Um simples telefonema sem a capacidade de o surpreender, que nunca teve. Não, não ia. Não ia despir o fato, nem deixar a casa. Tinha uma vida. Simples, organizada e nada complicada. Tinha o labrador cor de sonho, os vidros enormes e um armário estupidamente organizado e recheado. Tinha o trabalho (trabalho?) e o gira-discos. Tinha prateleiras de livros e filmes, festas constantes, um ou outro copo. Tinha um horário, uma agenda e um monte relógios. E a casa (dos seus sonhos). Uma casa grande, confortável, linda. Onde o silêncio pingava pedaços dela. Quieta. Demasiado quieta.
The other foot on the train.

quinta-feira, março 23, 2006

The House of the Rising Sun

Imagino-me a entrar em casa daqui a 20 anos. Outra casa. Um sítio diferente, branco e amplo sem muita coisa e com uns vidros estupidamente grandes. Olho-me ao espelho na entrada e mexo no cabelo, grande e certinho, a disfarçar os primeiros sinais de rugas na testa. As minhas roupas são diferentes, pesam mais e não têm as cores de antigamente. Desaperto um pedaço de tecido ao pescoço e descalço os armani que a minha mãe me deu pelo Natal. Grito, “Querida cheguei”, apenas pelo prazer do eco pela casa. Um labrador cor de sonho salta-me em cima sujando-me a camisa por completo. Começa a fazer sentido. Vou até ao gira-discos com um estilo caríssimo e testo-o com a voz de um Frank Sinatra particularmente inspirado. Preparo um martini duplo para acompanhar, shaken, not stirred e estico-me no sofá, estoirado com o dia de (possível) trabalho. A casa parece no entanto parada. Demasiada quieta. Não há fotografias ou quadros em lugar algum. O único barulho é o da agulha a riscar o disco, sem voz. Acabo por adormecer no sofá como já seria costume e acordo tarde como seria de esperar. Arrastei-me para a banheira ajudado pelo cão que me enchia as calças de baba.
A melhor coisa da casa era o quarto de vestir, só para as roupas. Um armário para camisas e casacos, outro para calças e as gavetas para o calçado. Deve-me ter saído o euro milhões o ano passado, penso. Acabo de ajeitar a gola quando o telefone toca. Corro à procura do som que vem do meio das almofadas e carrego de imediato no botão. Preparo-me para falar e penso por um instante. Assim que lhe ouvi a voz percebi imediatamente.

To be continued.

sábado, março 11, 2006

Pinto quadros por letras


O mundo lá fora começou a ficar com tonalidades estranhas. Senti-lhe a tinta estalar. Aquela cor que eu tanto adorava estava amarelada do sol. As partes mais baixas tinham ficado borratadas com a humidade. Da janela da minha vida via um quadro sujo, velho e estragado. Parecia que o tempo tinha-lhe roubado a cor e levado a vida. A fé extrema que um gesto muda o mundo, o desejo de amar até morrer e de morrer por amar, os laços fundos, profundos, intensos, todos eles pareciam fugidos dessa pintura. Naquele dia a paisagem foi diferente. Tudo se parecia arrastar por inércia, por obrigação, “porque me mandaram”. Tentei gritar-lhes para se mexerem, para se entregarem mas nada, nem só um movimento fora do lugar, do ritmo sincronizado. Nem tão pouco uma cor forte, cheia de vida. Fechei a janela triste, sabia que não conseguia pintar um novo. Não sabia como. No dia seguinte conheci alguém que me disse que todos somos capazes de pintar. Basta querer. Nunca ninguém disse que só há uma maneira de pintar bem, disse-me ela. Arrumei o quadro desbotado. Pendurei aquela tela branca nova, dei-lhe cor, atirei-lhe luz. Pus-lhe movimento, devolvi-lhe a vida. Plantei o amor desmedido, o querer impossível, a solidariedade sincera, a amizade honesta e eterna. Descobri que a janela do meu quarto sou eu que a pinto. Nunca ninguém disse que só há uma maneira de pintar bem.

quarta-feira, março 08, 2006

E não nos deixeis cair em tentação

Era nisto que eu estava a pensar quando comecei a escrever encostado ao balcão. Tinha olhado para ela insistentemente nos últimos minutos e sentia cada vez mais um barulho qualquer na barriga que me aumentou o desejo e me disparou a loucura. Fiz tenção de não olhar mais e de responder mas quis ser fraco e fiquei mais um pouco a observar de pé. Pensei. Só há duas maneiras de lidares com isto. A Bem ou a mal. E o instante chegou sem que tivesse ainda decidido. A minha boca fez os mesmos movimentos que a dela a 10 metros de distância a uma velocidade alucinante e perigosa. Vê-la a olhar para aquilo causava-me raiva e um ciúme enorme que tentava a custo controlar. Seja feita a sua vontade. Não consegui. Saí. Consigo pensar no que me faz bem sem pensar sequer muito nisso. Costumo saber como aproveitar bem uma tarde improvisando no momento. Gosto de aproveitar as coisas boas da vida e sou pragmático naquilo que quero. Apenas não gosto de contar os meus pequenos segredos a ninguém ou deixariam de ser meus. Prefiro escrevê-los e guardá-los num sítio bem secreto onde anos mais tarde os possa ir buscar. Poucas coisas trocaria por uma cerveja bem gelada num pôr-do-sol frio e um cigarro quente. Gosto de sair de casa e correr até ficar demasiado cansado para conseguir voltar para trás. Uso dois relógios mas adoro fazer tempo sem nunca chegar atrasado. Gasto fortunas em sapatilhas e uma ninharia em pijamas porque prefiro sentir o linho branco na pele. Perdoai-lhe as suas ofensas. Acima de tudo não faço intenção nenhuma de deixar de gostar da minha vida. Gosto de mim, gosto das pessoas e geralmente é recíproco. Gosto de falar e de ouvir. Acho piada ao meu futuro e adoro o passado. Gostos dos meus planos e dos meus sonhos. De dormir e de comer. Do mar e de amar. Mas livrai-nos do mal.